História e Ciência 13 de janeiro de 2022

Livro que mudou a forma de tratar acidentes com cobras completa 110 anos

Técnicas criadas por Vital Brazil são usadas até hoje


Em uma época em que os acidentes com cobras eram tratados com remédios caseiros e atingiam, principalmente, os trabalhadores do campo, o médico sanitarista Vital Brazil se interessou pelo assunto. Foi graças à continuidade de suas pesquisas após a criação, nas primeiras décadas do século 20, do Instituto Serumtherápico (atual Instituto Butantan), inaugurado com o objetivo de fornecer soluções para o problema da peste bubônica, que ele fez uma das maiores descobertas da saúde pública relacionada ao tratamento de acidentes com animais peçonhentos: a especificidade dos soros antiofídicos. A descoberta foi descrita no livro “A defesa contra o ophidismo”, publicado em 1911, e que acaba de completar 110 anos.

A obra de Vital conta toda a experiência e aprendizado que ele teve durante os dez anos de produção dos primeiros soros antiofídicos no Butantan. “A importância do livro é histórica, pois deu as definições de muita coisa que acontece até hoje”, conta o diretor do Museu Biológico do Butantan, Giuseppe Puorto. Além da especificidade dos soros (ou seja, o princípio de que cada picada deve ser tratada com um soro específico para o veneno da cobra que causou o acidente), são abordados temas como profilaxia, terapêutica do ofidismo, a atividade dos venenos no corpo, como fazer a extração de veneno e a preparação do soro – informações que são utilizadas até hoje.

Para desenvolver o soro, é necessária a própria peçonha. Por isso, Vital promoveu campanhas para obter cobras para o estudo e a própria produção dos soros. A população capturava os répteis e os levava até ele. Assim que chegavam ao instituto, porém, as cobras morriam. Vital percebeu que isso tinha relação com o modo de captura, que causava lesões nos animais. O médico desenvolveu ferramentas para auxiliar nessa tarefa, explicadas no livro, que são usadas desde então, como o gancho de captura e a caixa de transporte. Outra inovação foi uma caixinha a ser entregue a quem sofria os acidentes: ela continha um frasco com soro e uma ficha para que o paciente descrevesse o que sentia. A ideia era entender como o veneno agia no corpo. Atualmente, esse documento é conhecido como ficha de notificação e é usado pelo Ministério da Saúde. 

“Ele deu as bases para o que se faz hoje. Se atualmente a gente faz um soro de melhor qualidade, foi baseado no que ele desenvolveu aqui dentro”, conta Giuseppe, que também é diretor do Museu Histórico e do Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan. O livro atualizou tudo que se sabia sobre ofidismo e tratamento de acidentes com animais peçonhentos, e inaugurou um campo de estudo que continuou sendo aprimorado com o passar das décadas. “A melhoria vai desde a coleta do veneno, o entendimento das cobras, como se lida com o animal, até a obtenção dos venenos e o tratamento”, completa.

Antes das pesquisas de Vital, o número provável de acidentes anuais com serpentes era de 19.200, com 4.800 mortes e letalidade de 25%. O livro conta que, 15 anos após o início da produção de soros, houve queda de 50% nas mortes por acidente ofídico. Hoje, o número de mortes por picada de cobra é de 0,5%, com uma média de 30.000 acidentes por ano no Brasil. Esses indicadores demonstram a importância dos soros para a sociedade. “O ideal seria que ninguém morresse, mas o Brasil é muito grande. “Às vezes as pessoas têm dificuldades de transporte para acessar o serviço médico”, explica Giuseppe. 

Passados 110 anos de sua publicação, o livro continua um dos marcos da história da saúde pública brasileira. Com edições todas encadernadas com pele de cobra, ele teve sua primeira versão escrita em francês e depois em português. Atualmente, o livro é uma raridade, sendo possível encontra-lo apenas digitalmente. “Ler esse livro hoje é se transportar para a época. Tento me colocar no lugar dele, vendo como era a sociedade, o conhecimento naquela época e a visão que ele tinha”, aponta Giuseppe.

Clique aqui e acesse o livro digital “A defesa contra o ophidismo”

Fotos cedidas pelo Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória

Fonte: Butantan

FH, 13/01/21

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