O que acontece com a História – e a memória – quando tudo vira arquivo digital?
Com o (quase) fim do papel e a fragilidade dos registros virtuais, cresce o risco de apagarmos nossa própria memória?
Como historiadores de formação, aprendemos que jornais antigos são muito mais do que simples fontes de informação. São espelhos de uma época, registros vivos de comportamentos, costumes, linguagens, formas de vestir e estruturas de poder. Em suas páginas amareladas, com anúncios curiosos, editoriais inflamados e fotos desbotadas, encontramos pistas valiosas sobre como pensava e vivia uma sociedade.
Mas não são só os jornais. Revistas, cadernos de receitas como os famosos ‘Cadernos Goiabada’ — que já foram até tema de estudos acadêmicos —, cartas de família e álbuns fotográficos compõem esse imenso acervo de fontes primárias, preciosos para quem estuda História e para quem simplesmente quer entender de onde veio. O problema é que todos esses registros físicos estão desaparecendo no mundo atual, substituídos por versões digitais — quando muito.
Hoje, muitas cartas são enviadas via aplicativos de mensagem e se perdem com a troca de celular ou uma simples exclusão de conversa. Momentos familiares que antes viravam fotos reveladas, organizadas em álbuns com plásticos transparentes e até com os negativos guardados para futuras reimpressões, agora desaparecem em um clique, sem aviso nem cerimônia. Há famílias que não têm sequer um registro impresso do crescimento dos filhos — e muitos jovens sequer sabem o que é um álbum de fotos.
Pergunta-se: com o fim gradual da imprensa em papel e a virtualização completa da memória cotidiana, o que será das fontes históricas no futuro? Que garantias o pesquisador terá de que poderá acessar as publicações, imagens e documentos do nosso tempo, que hoje só existem de forma digital?
Documentos em papel, quando bem preservados, resistem ao tempo. Já os arquivos digitais são frágeis. Um clique errado, um servidor desativado, um formato obsoleto — e toda uma coleção pode desaparecer sem deixar vestígios. Diferente do acervo físico de uma biblioteca, que pode sobreviver por séculos, o conteúdo digital exige manutenção constante, migração entre plataformas e depende de infraestrutura tecnológica.
Além disso, o ambiente digital permite algo ainda mais perigoso: a alteração silenciosa do passado. Já existem registros de documentos públicos e matérias jornalísticas que foram modificados após sua publicação original, sem nenhuma indicação de mudança. Não é que se esteja apagando o passado — o que, de fato, é impossível —, mas sim embaralhando os rastros que levam até ele. E isso confunde, desinforma e abre brechas para todo tipo de manipulação.
É verdade que há esforços importantes de preservação digital. A Hemeroteca Digital Brasileira, por exemplo, tem feito um trabalho notável. Mas não podemos depender apenas de iniciativas isoladas. A maioria das publicações digitais de hoje não está sendo arquivada por instituições públicas. E boa parte da nossa memória contemporânea está hospedada em plataformas privadas, sujeitas a interesses comerciais ou decisões empresariais que podem, a qualquer momento, reescrever a história — ou simplesmente apagá-la.
Há registros de absurdos como de instituição pública, inclusive universidade, simplesmente deletar, no site da entidade, seus arquivos de notícias, fotografias, publicações, etc e, quando perguntada, simplesmente ninguém da administração sabe dizer o que houve. Ou finge não saber.
Preservar o passado não é apenas uma tarefa para o historiador. É uma responsabilidade coletiva. Precisamos de políticas públicas que garantam o arquivamento confiável e auditável do conteúdo digital. Precisamos de leis que protejam a integridade dos documentos. Precisamos, sobretudo, de consciência: o que não for salvo hoje, pode estar perdido amanhã.
Porque a memória de um povo não se apaga de uma vez. Ela se desfaz em silêncios, omissões — e arquivos deletados.
*Everaldo Goes é graduado em Licenciatura em História, jornalista e editor do Feira Hoje
25/05/25
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