Educação 14 de junho de 2025

Projeto Alfagaris vence prêmio nacional, mas levanta dilema

Por que ainda há tantos sem acesso à alfabetização?

Subir ao palco para receber um prêmio nacional seria, para muitos, apenas uma consagração. Para a professora Sandra Nívea Soares, coordenadora do projeto ‘Alfagaris’, foi também um momento de contradição e denúncia. Representando a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e a empresa Sustentare, ela foi ao Rio de Janeiro receber o prêmio LED – Luz na Educação 2025, promovido pelo Grupo Globo e pela Fundação Roberto Marinho.

Levou consigo muito mais que um troféu. Levou os rostos e as vozes de adultos trabalhadores que só agora estão aprendendo a ler e escrever.

Foto: captura de vídeo

Vestida com o fardamento usado diariamente pelos garis de Feira de Santana, Sandra subiu ao palco com as fotos dos alunos estampadas na roupa. “Sobe com a roupa que a gente trabalha, porque é assim que a gente constrói a vida da gente”, disseram os próprios alunos. A imagem comoveu o público e sintetizou o espírito do projeto, ou seja, a alfabetização como caminho de cidadania e dignidade.

O ‘Alfagaris’ nasceu da união entre a Uefs e a Sustentare, empresa responsável pela limpeza urbana na cidade. A sensibilidade social do empresário Adilson Martins e o compromisso acadêmico da Universidade formaram a base de um projeto que, mais do que ensinar o alfabeto, propõe uma leitura crítica da realidade. Inspirado por Paulo Freire e pelas ‘escrevivências’ de Conceição Evaristo, o projeto leva seus alunos ao cinema, ao teatro, às festas literárias e aos museus. “Aqueles que limpam a cidade para os outros usufruírem também têm direito a ela”, afirmou Sandra, em um discurso que ecoou como manifesto.

Mas foi também com dor que ela falou ao país. “Só estou aqui porque coordenei um projeto que alfabetiza adultos. Só estou aqui porque a política educacional que diz ser para todos nunca foi de fato para todos”, disse, lembrando que mais de 11 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda não sabem ler nem escrever. “É como se a região metropolitana do Rio de Janeiro inteira fosse analfabeta”, comparou.

Entre o lixo e o livro, a professora vê a luta. E no prêmio, enxerga luz — não apenas para celebrar, mas para iluminar um problema que o Brasil insiste em esconder. Como ela mesma resumiu no encerramento de sua fala:

“Alfagaris: o lixo, a luta e o livro que constroem resistência e fazem dignidade.”

Everaldo Goes / Feira Hoje

Assista ao vídeo da premiação

14/06/25

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