Ainda Leonardo Pareja: os enigmas além da foto
Quando história pessoal, imprensa e controvérsia se cruzam no sequestro de uma jovem de família influente da capital baiana. Há 30 anos
O cerco em Feira de Santana
Em setembro de 1995, o Brasil voltou os olhos para Feira de Santana. O jovem Leonardo Pareja manteve como refém uma adolescente de 16 anos, integrante de uma família influente da Bahia. Durante três dias, a cidade viveu um cerco policial inédito. Pareja aparecia enrolado em lençóis, ameaçando a garota e negociando com a polícia. Há versões que sugerem que eles teriam se conhecido em uma boate em Salvador na noite anterior, mas não há confirmação oficial desse detalhe.

A escolha pelo confronto
Curiosamente, na época Pareja não era procurado pela Justiça. Se tivesse liberado a jovem de imediato, talvez passasse apenas alguns dias preso. Ele não pediu resgate e não apresentou exigências claras. Ainda assim, optou por prolongar o confronto, numa atitude que ampliou sua fama e marcou sua imagem como um criminoso audacioso.
O papel da imprensa
A cobertura do caso em Feira de Santana também entrou para a história. O fotógrafo Washington Nery, do jornal Feira Hoje, fez a imagem que ganhou repercussão nacional e foi premiada em salão de fotojornalismo. Além dele, tiveram papel central o editor Valdomiro Silva e o chefe de reportagem Augusto Ferreira. Este último chegou a ser arrolado como testemunha de defesa de Pareja, situação que ele considera absurda até hoje.

Infância e contradições
Apesar da trajetória criminosa, relatos dão conta de que Pareja teve uma formação considerada privilegiada. Teria estudado em boas escolas, falava inglês e chegou a aprender piano. Essas facetas contrastam com a imagem do bandido destemido e debochado que o país conheceu. A mistura de cultura, inteligência e violência ajudou a construir a aura controversa em torno de sua figura.
A mãe e a indenização
O destino da família também ganhou capítulos posteriores. A mãe, Carmem Pareja, moveu ação contra o Estado de Goiás pela morte do filho dentro do presídio, em 1996, quando ele foi executado por outros presos. Em 2011, a Justiça determinou o pagamento de R$ 105 mil por danos morais. O processo, no entanto, foi longo e há dúvidas se ela chegou a receber integralmente o valor antes de sua morte, em abril de 2023. Carmem foi enterrada em Goiânia, no mesmo túmulo do filho e do marido.

Imagens: acervo Uefs – Museu Casa do Sertão
Prisões recentes e ecos da história
Décadas depois, os ecos do caso continuam a surgir. Em fevereiro de 2023, a Polícia Militar prendeu em Anápolis José Carlos dos Santos, condenado a 45 anos de prisão por participar do assassinato de Pareja no antigo Cepaigo, em 1996. Ele estava foragido desde 2018. O episódio mostra como a saga de Leonardo Pareja ainda reverbera na memória coletiva, misturando crime, justiça e imprensa, em uma história que não se apaga facilmente.
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Everaldo Goes / Feira Hoje
04/10/25




