Artigo / Por Everaldo Goes 16 de novembro de 2025

A idade que não nos freia

Parei num restaurante e vi, ali mesmo, diante das mesas arrumadas, uma fotografia perfeita do Brasil que envelhece — mas envelhece bem, com força, com propósito, com futuro.

Logo à entrada, mesas ao ar livre, encontrei o jornalista Wilson Mário Pinheiro, de 75 anos, comemorando a defesa da dissertação de mestrado ‘MR-8 e Carlos Lamarca na Bahia, cerco, prisões, torturas e mortes (1964-1972)’, pela UFBA. Setenta e cinco anos. Enquanto muita gente diz que a idade já passou, ele está ali, estudando, escrevendo, pesquisando, defendendo um trabalho acadêmico pesado, complexo, rigoroso. Cada vez que alguém se dedica a estudar, a escrever, a manter viva a memória, estamos dizendo ao mundo que os ideais não envelhecem. Isso, por si só, já desmonta a velha ideia de que depois dos sessenta é hora de parar. Parar para quê.

Ao lado dele estava Jânio Rêgo, 67 anos, que conversou um pouco e saiu apressado, não para descansar, mas para trabalhar. Naquele dia estrearia um novo quadro no Programa Transnotícias, na rádio. Aos 67 anos, Jânio continua fazendo o que sempre fez, informando, narrando, pensando a cidade. Quantos jovens hoje dariam muito para ter essa energia.

A idade que não nos freia Parei num restaurante e vi, ali mesmo, diante das mesas arrumadas, uma fotografia perfeita do Brasil que envelhece — mas envelhece bem, com força, com propósito, com futuro. Artigo Everaldo Goes

Na mesma mesa, estava Aurelino Neto, 61 anos, comerciante e técnico de informática. E não está contente em ficar onde está. Ele está abrindo mais um ramo de atividade, instalação de placas solares para empresas e residências. Fez curso, estudou, correu atrás. Sessenta e um anos e ampliando o leque, reinventando-se, como deveria ser natural para todos nós.

Na mesa ao lado, encontrei Marcos Cruz, 65 anos, com sua nova namorada de 57 anos. Os dois rindo, conversando, brindando com cerveja gelada, olhares divididos entre si e o cenário da rua, com seus carros e pessoas que  passavam. Paixão viva, olhar atento, alegria de estar ali. Marcos, sempre filosófico, comentou algo que não esqueci:

“Vigor sexual não tem idade. E não precisa de azulzinha. É alimentação, é cabeça, é querer.”

E depois completou outra reflexão, com a calma de quem já entendeu a vida:

“Tanto faz ter 100 reais ou um milhão; tem que saber viver…”

Olhando os dois juntos, era fácil acreditar.

Do outro lado, trabalhando sem parar, estava Manoel “Capuchinho”, dono do restaurante, com mais de 70 anos. O mesmo vigor dos anos 1970, quando o Buteco do Vital já fervilhava de histórias. Capuchinho continua servindo, limpando, organizando mesas, como se estivesse começando agora. Quem vê, nem acredita na idade.

E eu. Eu com 61 anos, ainda no jornalismo (há quase 40 anos), 25 anos na Uefs, insistindo em fazer do Feira Hoje um espaço vivo, atualizado, combativo, útil para a cidade.

Foi ali, naquele momento simples, que uma pergunta se impôs em silêncio. Por que insistimos em acreditar que envelhecer significa parar.

A verdade é que não significa.

Um século atrás, 40 anos já era velhice

Na segunda metade do século 19, no Brasil, alguém com 40 anos já era tratado como velho em jornais, romances, documentos oficiais. Os registros históricos mostram isso com clareza, em um contexto de expectativa de vida baixa, sobrecarga de trabalho físico, doenças sem tratamento eficaz e uma estrutura social rígida.

Aos 40 anos, muita gente já era vista como alguém no fim da vida produtiva.

Hoje, temos 40 anos como começo de muita gente. E 60, 70, 75 como continuação, não encerramento.

O Brasil está envelhecendo, sim. Mas está envelhecendo com saúde, com lucidez, com desejo de produzir, aprender, amar, recomeçar.

Não existe mais um muro invisível separando juventude de velhice. O que existe é gente vivendo.

Quem olhar aquele restaurante entende o futuro

Naquela tarde/noite, percebi que a vida brasileira não está se apagando com o envelhecimento. Está se reinventando. Só precisamos olhar melhor.

  • 75 anos fazendo mestrado.
  • 67 anos estreando quadro de rádio.
  • 61 anos abrindo novo negócio.
  • 65 anos vivendo romance com alegria.
  • Mais de 70 anos tocando bar como se tivesse trinta.
  • 61 anos escrevendo, trabalhando, observando o mundo, eu no meio deles.

Se isso não é vitalidade, o que seria.

A idade não nos freia. A idade nos molda, nos afina, nos ensina e, quando a gente quer, nos empurra para a frente.

A verdade é simples e poderosa. O Brasil está envelhecendo. Mas está envelhecendo de pé. E isso deveria servir de exemplo e de esperança para os mais jovens.

Everaldo Goes, jornalista, editor do Feira Hoje e graduado em Licenciatura em História. 

16/11/25

@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje

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